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Cães e gatos também podem ser doadores: além de salvar a vida de outros animais, A boa ação rende um check-up gratuito

O rottweiler Saddam, 6, doa sangue no hospital veterinário da Universidade Anhembi Morumbi

 

sangue bom

por Roberto de Oliveira

Corpão sarado, cara de “bad boy” e nome assustador. Quem olha para Saddam, um rottweiler de seis anos, não imagina que, quatro vezes por ano, ele troca os incessantes latidos no quintal por uma tarefa do bem: doar sangue.

Aquele clássico slogan de campanha, “doe sangue, doe vida”, não se aplica exclusivamente a seres humanos. Cães e gatos também podem socorrer outros animais da mesma espécie, apesar do desconhecimento da maioria dos donos.

Anemias, tumores cancerígenos, doenças como insuficiência renal e leucemia, atropelamento e intoxicação por veneno são alguns dos problemas que podem levar pets a necessitar de reposição sangüínea numa mesa cirúrgica.

Assim como ocorre entre humanos, o bicho candidato precisa estar em forma e seguir à risca as exigências para se encaixar no perfil de um doador (veja quadro na página ao lado).

Segundo o veterinário Márcio Moreira, 34, coordenador do banco de sangue do hospital

veterinário da Universidade Anhembi Morumbi, em média, 20% dos bichos atendidos pelo hospital morrem por falta de doadores de sangue. Não existe uma estatística oficial para a cidade de São Paulo, mas os especialistas acreditam que esse percentual pode ser ainda maior.

Para tentar desenvolver o hábito entre os paulistanos e, com isso, salvar vidas, a universidade está organizando uma campanha. O dono liga para o hospital, marca um horário e leva o bicho até lá para doar.

Foi o que fez a dona de Saddam, Luciana Silvano, 32. “Ele se transformou num doador regular”, conta. Há duas semanas, o rottweiler doou uma bolsa de 450 ml de sangue.

Quem se submete à agulhinha passa por exames, como hemograma completo e sorologia, para detectar uma série de doenças infecciosas, transmitidas pelo sangue. Entre cães, as principais

são erliquiose, conhecida como doença do carrapato, dirofilariose (verme do coração), leishmaniose e brucelose. Aids e leucemia felinas concentram as preocupações entre gatos.

O resultado dos exames demora cerca de uma semana. Geralmente, o laboratório encaminha para o dono por e-mail, fax ou correio. O objetivo dessas análises é minimizar o risco de transmissão de doenças infecciosas e de efeitos colaterais no receptor.

Bichos podem doar sangue, em média, a cada dois meses. No dia da picada, é recomendável que eles reduzam a carga de exercícios -melhor evitar passeios mais demorados, por exemplo.

Aquela tonturinha típica depois de doar sangue, comum em humanos, não costuma atordoar os animais domésticos. Rafaela Kley, 27, veterinária do Hemovet, especialista em medicina transfusional, explica: “Em humanos, além do efeito psicológico, a queda de pressão é mais acentuada do que nos quadrúpedes”.

O Hemovet trabalha com banco de sangue coletado de animais em canil. Como o hospital da Anhembi Morumbi, também recolhe de doadores voluntários, pré-agendados.

Doador universal
Gatos possuem três tipos de sangue: A, B e AB. Estudos internacionais detectaram cerca de 20 tipos sangüíneos entre os cães, mas seis são imprescindíveis dentro da chamada medicina transfusional: DEA (“dog erythrocyte antigen”, antígeno eritrocitário canino, espécie de proteína encontrada na parede das células) 1.1, 1.2, 3, 4, 5 e 7.

Cães não nascem com anticorpos contra outros tipos sangüíneos, explica a veterinária Rafaela. Na primeira transfusão, o risco de reação é mínimo. Mas isso não impede que o mesmo animal volte a manifestar uma resposta negativa em outras transfusões -o que, inclusive, pode ser fatal.

Para evitar que a reação aconteça, antes de cada transfusão é feito um teste de compatibilidade que irá verificar a presença de anticorpos contra o sangue que o bicho vai receber. Para registro, o tipo sangüíneo canino mais comum é o DEA 1.1 positivo.

Pesquisas realizadas nos EUA revelam que a raça greyhound -aquele cachorro de corrida magricelo-, de tipo sangüíneo DEA 4, é doador universal.

Gatos são como os donos. Eles já nascem com anticorpos. “O bichano que tem sangue tipo AB, porém, é um receptor universal, ou seja, pode receber qualquer tipo de sangue”, explica o veterinário Márcio.

Mas, para os bancos de sangue, desde que o material seja sadio, qualquer um dos tipos é bem-vindo.

O bicho doador ganha uma medalha ou um biscotinho como agrado. Além de uma boa ação, é uma forma de manter a saúde do animal em dia sem gastar nada por isso.

quem pode ser um doador

cão
Peso mínimo de 27 kg
Idade de um a oito anos
Vermifugação e vacinação atualizadas
Controle de ectoparasitas (carrapatos e pulgas)
Temperamento dócil
Não ter passado por procedimento cirúrgico recentemente

gato
Animal de ambiente interno (para evitar riscos de doenças infecciosas)
Peso mínimo de 4,5 kg
Idade de um a sete anos
Vermifugação e vacinação atualizadas
Controle de ectoparasitas (carrapatos e pulgas)
O bicho precisa ser sedado para a doação
Não ter passado por procedimento cirúrgico recentemente

onde doar

Hemovet – Laboratório e Centro de Hemoterapita Veterinária, tel. 6918-8050 (www.hemovet.com.br)


Fontes: veterinários Márcio Moreira (hospital veterinário da Universidade Anhembi Morumbi) e Rafaela Kley (Hemovet)

 

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